Jane Birkin e Serge Gainsbourg :: Orang Outan
O FFFFOUND!:
- É a melhor galeria de imagens da internet atualmente.
- Me fez questionar diversas vezes de onde vem tanta coisa de qualidade e tão rapidamente.
- Acabou com minha vontade de tirar fotos.
Um tempo sustentando o hábito de ver imagens no ritmo frenético que o FFFFOUND! impõe e percebi estar diante de uma atividade narcótica e viciante, pela facilidade de acesso e satisfação imediata que causa. Suspeito que depois dele perdi grande parte do senso crítico e passei a me concentrar apenas nos fatores mais primitivos de sedução da visão, como contraste e vibração de cor. Após horas usando, sou invadido por uma sensação de torpor, de ter experimentado um tempo morto em que não produzi, não refleti, apenas botei pra dentro imagens legais e bonitas, mas que no caos em que foram apresentadas, não serviram pra nada, logo serão esquecidas e precisarão ser substituídas por novas, absorvidas com uma falta de entusiasmo crescente. Na nova galeria de arte que é o FFFFOUND!, o conteúdo das imagens me pareceu esvaziado quando o computador virou curador e a sensibilidade humana, que dispõe o quê, a ordem e como vai ser visto, foi substituída por um sistema de tags. Isso explica uma foto do Robert Capa surgir na mesma sequência de um editorial com Vincent Gallo decadente e uma ilustração de bichinho feita por um designer escandinavo. FFFFOUND! não foi o único culpado pela minha crise. Tumblr e Flickr também me deixam confuso com a mistura desses bichinhos coloridos, fotografia vintage registrando estilos de vida frugais, mensagens irônicas em Helvética, FAIL - espécie de Video Cassetadas da fotografia, a proliferação dos ensaios de moda, festas e mais uma dezena de gêneros dividindo o mesmo lugar, ao mesmo tempo, formando uma fila de abas no meu Firefox, bagunçando minha noção do que é o mundo no fim desta década. O golpe mais profundo foi a impressão de que tudo que fotografei seria nada mais que uma reprodução inconsciente, sem conteúdo e originalidade da grande torrente de imagens que acertaram minha visão nos últimos anos e que cuspi pra internet de volta só porque eu podia, sabia como e tinha as ferramentas pra isso. Foi quando minha vontade de tirar fotos acabou.
Até que numa tarde infernal em Belém do Pará, decidi subitamente tentar de novo, em uma região perigosa da cidade, a Avenida Pedro Álvares Cabral, pobre, feia e inevitável. Diariamente, metade das pessoas que entram, saem e trafegam por Belém passa por lá em algum meio de transporte, por esse lugar considerado apenas uma via. Sozinho, suando, desprotegido, caminhando pelas calçadas irregulares, respirando as baforadas dos ônibus que passavam rápido em sentido contrário e deixavam aquela poeira maldita que entra nos olhos, irrita e humilha, vivia internamente o confronto entre tirar algo enriquecedor daquela experiência e o cinismo que me fazia rir de mim mesmo, da roubada em que havia me metido. Vi uma portinha que dava pra uma pequena sala praticamente na beira da pista, onde um fabricante de dentaduras lapidava o final de uma prótese. “Pra quê?”, respondeu quando lhe perguntei se poderia tirar uma foto sua. Me senti indagado sobre a vaidade envolvida naquele pedido, no troféu pela descoberta exótica que eu esperava obter às custas dele pra pendurar na minha galeria virtual. Atravessando a rua, dois irmãos amazonenses, técnicos em elétrica, exaltavam Belém, uma terra de oportunidades, onde “só morre de fome quem quer”, porque chances brotariam até no lixo. Começaram a vida catando latinhas. Um deles falava entusiasmado da beleza do projeto dos velhos ventiladores domésticos e a alegria que sentia hoje em dia quando conseguia colocar as mãos em um. Pelo caminho, dezenas de pessoas com olhar apático e caladas sentavam em frente às quatro pistas da avenida, vendo carros passando em um calor quase insuportável pra um ser humano. Em uma Igreja Universal, três pedreiros evangélicos construíam um novo altar. Um garoto loiro, branco, gordo e muito estrábico, com feições de sapo, tão marcantes que vão me permitir reconhecê-lo daqui a 30 anos, ajudava indo buscar baldes de água pra adicionar na mistura do cimento. Ele se incumbiu de ir chamar o pastor quando ensaiei tirar a foto de um trono de isopor em tamanho real que ficava em cima de uma mesa, com um par de sandálias sob ele, como se alguém sentasse ali durante parte do dia. O pastor veio e disse que não podia. Fiquei constrangido, senti que era uma defesa legítima. Em um supermercado com grades que cobriam toda a fachada, uma marca de café sorteava um carro em miniatura motorizado. “Tá todo mundo querendo, sonhando com isso. Pra vender, né?”, comentou uma das funcionárias. Próximo a uma ponte, de um buraco um mendigo atirou uma pedra em minha direção quando fotografei seu companheiro de rua. Era tão velho e fraco que a pedra parou a pelo menos 3 metros de distância de mim. O homem que trabalhava no jogo do bicho não respondeu ao meu cumprimento de boa tarde e continuou tomando açaí enquanto eu disparava com uma câmera na direção dele. Um barbeiro, logo adiante, deu boa tarde, mas também só isso. Negociei com uma cabeleireira uma foto dela com um garotinho. Durante a conversa, ele me olhava confuso, com a metade da cabeça raspada. Consegui a permissão pra tirar a foto, mas de longe. Tentei enquadrar, sabia que não ia prestar. Algo trombou. Um braço em volta do meu pescoço, sem engasgar, um engate suave e rápido. Nas costelas, um toque pontiagudo e pressionado na intensidade exata pra deixar clara a mensagem de assalto. A estratégia é simples, um dirige a bicicleta e o outro ameaça. Eram dois moleques, daqueles que já vi de centenas em equipes que vão festejar em aparelhagens. Vendo a cordinha da minha câmera balançando tão próxima e pensando que eram só garotos, instintivamente puxei de volta. O mais novo deu um golpe de faca que cortou apenas o ar, porque consegui tirar meu braço do caminho a tempo. Havia uma certa beleza no desenho daquele golpe, na maldade, no esforço refletido na expressão do moleque naquele instante, na técnica ingênua e desesperada da arte da faca para assalto. Se fosse uma foto, ia prestar, seria valiosa, original, reveladora, diria alguma coisa. A câmera foi e os rolos de filme com fotos ruins ficaram no bolso. FAIL.
16:09, Belém.
Sand Drawing by Kseniya Simonova about Germany’s invasion and occupation of Ukraine during WWII
Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.
O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.
(In: Breves Entrevistas com Homens Hediondos; David Foster Wallace)
Olha o gif animado disso. Espera carregar um pouco.
Scene D´Amour :: Bernard Herrmann
Uma teoria sem base. Quando a ciência atingir um patamar satisfatório em seus esforços de prolongar a existência humana, o foco majoritário das pesquisas será um novo conceito de qualidade de vida, a otimização das experiências pessoais prazerosas. No que diz respeito aos relacionamentos, essa será a era das redes sociais altamente desenvolvidas. A ideia de unir pessoas unicamente a partir de gostos e atividades em comum (filmes, músicas, fotografar) utlizadas por Facebook e Orkut, por exemplo, será superada. As novas redes sociais trabalharão com base em análises complexas da psicologia de cada um de seus usuários e formas sofisticadas de cruzar essas informações a fim de sugerir com precisão amizades e relacionamentos amorosos em um grau muito avançado de afinidade entre os envolvidos. Assim, o indivíduo, que já poderá viver bem por 150 anos, será também mais feliz, pois fará um esforço menor para sustentar relacionamentos incompletos ou superar traumas causados por pessoas que nem deveria ter conhecido. Na foto, Fábio, o homem mais indecente do mundo.