A câmera flutua zonza por uns escombros inundados a perder de vista, de onde surge um letreiro em néon com a inscrição America. Ele falha, mas insiste em manter a atividade. Uma menina negra contempla o horizonte. Fogos de artifício explodem no céu. Um poema supostamente na voz original de Walt Whitman, gravado em 1888, exaltando o espírito que fundou aquela nação e uma música atmosférica vão dando significado a uma colagem de imagens aleatórias de subúrbios pobres do sul dos Estados Unidos, um executivo apreensivo de Wall Street, uma família de imigrantes e jovens celebrando. É assim que publicitários espertos estão vendendo os jeans da Levi’s na Era Obama. Imagens saturadas de cinismo, ironia, sensualidade e sacadas criativas dão lugar a temas sociais, que, até onde sei – e sei pouco sobre isso -, desde Benetton dos anos 80, não têm lugar no mundo da moda.
Eu tinha postado esse vídeo aqui, mas decidi repetir após uma discussão por email em que o Vlad opinou achando uma merda:
A questão é que os Estados Unidos talvez sejam o único país que conseguiu criar uma imagem idealizada de si mesmo para o resto do mundo. Em parte por conta do cinema, dos quadrinhos e da publicidade.
(…)
Então o que eles fazem aí? Apelam para o mito da Grande Nação Americana desde o velho-oeste até os anos 50, com um poema do Whitman e Norman Rockwell PB.
Conceitualmente esse vídeo é semelhante àquele final de Armageddon, que também recorreu aos Estados Unidos pré-depressão e às capas do Saturday Evening Post pra idealizar a importância deles como guardiões do mundo ocidental.
Discordo da semelhança com Armageddon. Não dá pra comparar Michael Bay com imagens inspiradas em Robert Frank só porque entre as duas há a ocorrência de uma bandeira dos Estados Unidos. As ideias de América em Armageddon e no comercial da Levi’s são bem diferentes. No primeiro caso é a maior nação do mundo provando sua hegemonia bélica. No segundo, uma sociedade em crise, tentando se reerguer após a terrível ressaca do período em que acreditou ser a América de Armageddon.
Mas a questão nem é essa, e sim o quão distante está a América real da América idealizada, montada em escritórios de publicidade. O comercial é um dos mais bonitos e inspiradores que assisti de um bom tempo pra cá, mas esse aí é o espírito que prevalece ou só a melhor oportunidade atual pra vender jeans?