Essa foto é da minha última viagem de avião. Sentei ao lado de uma senhora muito velha que assoava um catarro alaranjado cítrico num lenço de papel a poucos centímetros de mim. Um corpo humano velho produz um catarro daquela cor e eu não sabia, fiquei assustado. Por respeito não mudei minha postura no assento. Agi como se não tivesse visto, ou como se não fizesse diferença. A velha chorou quieta quando o avião pousou. Segundo a filha, que tava ao lado, toda vez que isso acontece ela se emociona. As turbinas do avião projetam órgãos, massa muscular, ossos, calça jeans, cinto, camisa, meia, câmera, laptop, celular, catarro, esperma armazenado no testículo, memórias, atividades neurais pelo céu, em constante alta velocidade, por uns 1000 reais ida e volta, em média. É o preço pelo transporte do meu frágil e efêmero cérebro vivo por via áerea, das moléculas do meu corpo e das do catarro da velha, tudo interligado naquela cabine silenciosa, em contato e viajando pra frente. Foda-se o lenço da velha caindo no meu braço sem querer e me lambuzando com aquela porcaria, porque tá todo mundo junto, tudo junto, e por pouco tempo. Quero dizer, lógico que eu não penso assim.