Eu tinha inventando essa, que tempos legais e de grandes mudanças acontecem em períodos de nove anos pra mim. Como o último grande ano foi 2006, que viesse 2015. Mas os deuses do destino se ofenderam com a audácia e abriram um wormhole, atalho no tempo-espaço descrito pela física, nesse final de 2008, só pra cuspir na minha cara o quanto tudo é aleatório.
Tenho quase certeza que o final de 2008 foi uma experiência coletiva, mesmo que vivida em intensidades bem distintas pelos envolvidos. Alguns talvez nem tenham se dado conta disso, mas o fio que amarrou tudo esteve lá, concentrem-se, seja na grande reunião involuntária em que se transformou a apresentação emblematicamente à distância da Orquestra Imperial, seja na forma de um celular Nokia.
Os momentos de felicidade não programados acabam sendo privilegiados na hierarquia das boas memórias, talvez como forma de compensar o fato de ninguém ter se ligado que precisava registrar aquilo naquela hora. Em outros, os cuidadosamente - ou nem tanto - programados pra algo sensacional acontecer, alguém sempre tem que se encarregar de tirar as fotos e fazer os vídeos. De posse da minha câmera nova, finalmente desembaraçada após um pesadelo real envolvendo contrabandistas, espionagem por satélite, blefes, ameaças, a segurança do Busch Gardens, acabei me investindo no cargo de responsável pelo registro da confraternização de final de ano da LISTA (não explico isso) e do reveillon na sala de estar de onde eu moro.
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“Vai parecer frescura, mas esse sol tá bonito pra caralho” foi uma declaração inevitável no carro, a caminho do sítio da Priscilla, de tanto que aquela tarde parecia nos ameaçar com uma faca na garganta: “admitam logo isso, seus cínicos, ou sejam amaldiçoados.” No final do 40 Horas o portão se abriu e o circo estava armado, o meu Epcot Center era aquilo ali, com Wilco tocando alguma coisa que dizia respeito a um peso que me afligia e que naquele momento instantaneamente se dissipou, pela simples propriedade curativa que tem tu descobrir alguém que se fodeu igual. E depois disso não dá pra cair numa descrição muito diferente de uma redação de primeiro grau sobre as férias: eram os amigos da LISTA, rolou banho de piscina, futebol, amigo invisível, foi muito legal. Já passou, mas “cada um agora dança com o seu presente” me fez rir por 24 horas.
Agora pula pro dia 31, aquele começo de euforia que só uma segunda long neck e um estômago vazio podem te proporcionar, uma cozinha lotada, assuntos sendo atropelados e se cruzando caoticamente, mais uma vez o fio que ligou os eventos se tornando evidente. Trinta minutos pro ano novo e algo surpreendente me atingiu de assalto, mudando a operação da casa de máquinas da minha cabeça por alguns segundos. A sincronia desse momento com o início do ano de 2009, com aquele espumante que atingiu o teto da sala e de lá voltou em forma de goteiras, com vários outros planos e idéias que em poucos dias vinham sendo criadas ou rapidamente amadurecidas não podia deixar de gerar uma esperança ingênua e a impressão de que, não é possível, às vezes pode acontecer mesmo do prenúncio de um bom ano se manifestar diante de ti e tu ter que aceitar de bom grado.
Lá pelas sete da manhã a Roberta me ligou pedindo socorro porque não tinha como ir pra casa e não podia acordar os pais. Ela seria a segunda hóspede, junto com o Lobinho Carlos, já no trigésimo sono, em um dos quartos. Dormiu um pouco e acordou atacada, como sempre, metralhando reclamação pra tudo que é canto. Conviver com a Roberta é como ter um gorila em casa. Ele dá trabalho, ocupa espaço, toma teu tempo, suga tuas energias, mas algum maluco no mundo deve estar criando um. Devidamente alimentada com cigarro e torrada, parece que ficou calma e mandou ver numas rajadas de lamentos pessoais e filosofia de vida muito bem fundamentada. Pouco antes havia mostrado pra ela algo fantástico que tinha acabado de encontrar enquanto procurava um miojo qualquer, a única coisa que meu estômago aceitaria. Num pacote de arroz japonês lacrado que estava dentro da despensa, havia um inseto voador que nasceu e se desenvolveu lá dentro. Grudado na parede da embalagem, um casulo nojento cor de caramelo, de onde aquele bicho deve ter nascido. Analisei por todos os lados e não notei um buraco sequer por onde ele podia ter entrado. Realmente havia nascido e crescido lá dentro. Fui até a sacada, cortei a parte superior inteira do saco e esperei ele sair voando. Era tanto condicionamento que os vôos não ultrapassavam a fronteira do lacre, onde agora havia um rombo enorme. Primeiro dia do ano, sozinho em casa, um silêncio absoluto e eu totalmente envolvido nessa questão: o inseto ia sair do saco de arroz onde viveu a vida toda? Derramei um pouco fora e acho que ele acabou desaparecendo na onda que escorreu pelo parapeito. Não vi mais.
Essas são as fotos, em duas páginas.