Nos extras do DVD do Sonic Youth, Spike Jonze admite que não fazia ideia de que era preciso reforçar a luz que entrava pela janela no clip de “100%” (1992). Na cabeça dele só o sol era suficiente pra iluminar a sala de estar onde a banda tocava, enquanto uma molecada do skate perambulava em volta, entre eles o próprio Spike Jonze. Isso é tão ingênuo quanto achar que os discos são gravados com os instrumentos executados sempre ao mesmo tempo. Até então, a experiência dele se resumia a vídeos de skate feitos nas ruas de Los Angeles com uma câmera portátil. Sabe-se lá quem deu a um ex-corredor de BMX na adolescência o cargo de diretor de clip, colocando à disposição dezenas de técnicos, uma câmera de cinema, um orçamento e o Sonic Youth. Depois disso, e antes de chegar aos 30, ele dirigiu Cannonball, Buddy Holly, Sabotage e Da Funk, se tornando uma espécie de equivalente ao que Bret Easton Ellis representou pra literatura e Beck pra música daqueles idos, os jovens prodígios que faziam a arte fina da geração que viu surgir e foi criada com a MTV.
Pra indústria do entretenimento californiana não importa o teu diploma ruim, se tua mãe foi stripper, se uns 30 degraus te separam da família Kennedy ou se tu faz vídeos de skate, contanto que os judeus confiem na tua capacidade de dar retorno financeiro. Nesses termos é que são concedidos os títulos de nobreza modernos. Se Zack Snyder virou rei, Spike Jonze, Wes Anderson, Sofia Coppola, Alexander Payne e mais alguns outros compõem um elegante ducado que não aspira ser mais do que isso e de onde emana o novo cinema norte-americano, que cabe em uma classificação por possuir características muito próprias, como uma certa amenidade e autoreferência nos temas, humor sofisticado e a colaboração mútua entre os autores.
Scorsese filmou Jake LaMotta num preto e branco triste e cruel, enquanto hoje Wes Anderson investe a maior parte do orçamento em direção de arte estilizada pra contar a vida de Steve Zissou, sempre finalizando o material com a tipografia fofa tão própria dos anos 00, a mesma que Spike Jonze toma emprestada ao longo desse trailer foda de Where The Wild Things Are, seu primeiro filme infantil. Antes disso, o máximo que ele chegou perto do gênero foi com Y Control, do Yeah Yeah Yeahs. Wake Up, do Arcade Fire, ficou ainda mais épica e bonita colada nessas imagens. Tomara que esse filme seja pro meu irmão pequeno o que História Sem Fim foi pra mim. A molecada tá precisando disso. A chance de dar certo é alta, porque de fofura eles entendem.