Quando fui assistir Houve Uma Vez Dois Verões, um filme brasileiro que presta, a propósito, um fã do Frank Jorge beirando os 40 anos perdeu a linha em uma cena e começou a cantar junto e alto “Cabelos Cor de Jambo”, que faz parte da trilha-sonora. Era uma tarde de sábado escura e refrigerada em que o sol cozinhava a cidade do lado de fora. Não fiquei puto com o cara, foi curioso saber que o rock gaúcho podia expor alguém àquele ridículo numa sala de cinema de Belém do Pará.
Numa outra tarde de sábado, agora de carnaval, anos depois, Damaso me ligou avisando que o Frank Jorge faria uma apresentação no estúdio da Ná Figueredo em meia hora. Eu não havia assistido o show da noite anterior, com uma banda completa, por problemas sentimentais ainda não solucionados até então.
Umas trinta e poucas pessoas era o que tinha ali? Frank Jorge tocando um violão (do Damaso) sem nenhum efeito, sob luzes fluorescentes brancas, sentado em uma cadeira de plástico. Impossível um oposto mais radical a uma certa ideia de espetáculo e uma situação mais apropriada ao espetáculo dele, que pra adquirir ares de resistência, essa postura que permeia sua obra, exige a forma frouxa, o desapego à solenidade, a conversa com o público e o desinteresse pela presença de palco ensaiada. Precisa ser simples. Ele tava inseguro, talvez, mas seguiu no escuro dramático em que se encontra o artista que não consegue desvendar a plateia.
A música, em geral, é uma paródia carinhosa de Jovem Guarda. As letras contêm um sarcasmo doce e falam basicamente sobre como um certo tipo de homem pode sobreviver nos dias atuais, sempre empregando aquele tom de amigo pra amigo que gera a empatia. Não vou falar sobre que tipo de homem é esse, porque quem gosta de Frank Jorge sabe que é um deles. Também sabe estar diante de uma rara expressão de sinceridade no rock e tem o prazer de reconhecer isso.
Saí de lá certo de que tinha visto o melhor show do ano, e de quebra superei ao menos aquela crise sentimental. Tava prontinho pras próximas.
Aliás, tem alguma música do Frank Jorge sobre o verdadeiro drama da calvície iminente?